quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A história de um certo Pescador

Zé Pescador fala às crianças sobre a importância da preservação dos corais

Janaína. O nome não poderia ser mais apropriado. Em Tupi, significa Iemanjá, a rainha do mar e protetora das águas. Foi Janaína, com a inocência dos seus oito anos, quem despertou, antes de qualquer outro naquela comunidade, para a importância da preservação ambiental. Seu pai, José Roberto Caldas Pinto, mais conhecido como Zé Pescador, terminava de limpar as lagostas recém-capturadas, quando a menina lhe perguntou o que eram aquelas bolinhas saindo da barriga do animal. “São ovas, cada uma dessas bolinhas iria virar outra lagosta”, explicou Zé, sem muita paciência. “Mas pai, porque então o senhor não deixa elas nasceram antes?”, respondeu Janaína. Foi o suficiente para mudar, para sempre, a vida de Zé e de toda a comunidade onde vivem.

“Quando eu vi a decepção no rosto de minha filha, eu decidi que nunca mais faria aquilo”, lembra um Zé consciente e politizado. Mas nem sempre foi assim. Antes, Pescador exercia sua atividade sem dar muita importância para os sinais da natureza. “Eu pescava de toda a forma, não estava nem aí”, conta. Mas isso mudou e ele hoje é ativista, diretor-fundador da ONG Pró-mar, líder AVINA, parceiro do Instituto do Conhecimento (ICON) e dá palestras para grandes empresas em todo o Brasil, propagando a idéia da sustentabilidade.

Zé fundou a Pró-mar, em dezembro de 1999, com o intuito de realizar um trabalho de preservação ambiental com os pescadores da ilha de Itaparica, localizada a 13 km de Salvador, Bahia. Sua intenção era alertar a comunidade para os perigos da pesca predatória e fazer um trabalho de conservação dos recifes de coral que se estendem pela costa da ilha. “Esses corais são o local de reprodução e o habitat de mais de 65% das espécies marinhas. Por isso a preservação ecossistêmica é tão importante”, alerta.

O impacto e a destruição dos recifes de coral não são de hoje. Começaram com a povoação da vila e a exploração da pesca. Nessa história, já se vão quase 450 anos de degradação incontrolada. O resultado é que, hoje em dia, poucas áreas estão em bom estado.
A conscientização da comunidade é fundamental no processo de preservação
Para mudar esse quadro, a ONG desenvolve cursos de monitoramento, educação e capacitação dos membros da comunidade, dá dicas e informações de preservação aos visitantes, aulas de informação e cidadania aos filhos de pescadores e marisqueiras, e de inglês, francês e informática, pelo Instituto Jovem Digital.

Mas para Zé, o principal desafio é conscientizar os pescadores a não praticarem a pesca predatória, mesmo ela sendo a opção mais fácil e barata. “É uma ilusão achar que aquilo é bom para você, pode ser na hora, mas e depois, quando os peixes acabarem?”, questiona Pescador.

Novas formas de pesca para região
O ex-pescador acredita que a pesca sustentável deve ser desenvolvida através de um manejo participativo e que dê tempo aos estoques de se recuperarem. “Devemos pensar gestão e políticas públicas que favoreçam a recuperação dos estoques. Criar novas técnicas de captura menos agressivas, trabalhar o cultivo e a engorda dos animais – tendo cuidado, claro, com os impactos disso no ecossistema – tentar e experimentar coisas novas e levar a informação através de modelos de comunicação inovadores, que cheguem e falem a língua da comunidade”.

Para o líder, educação ambiental e informação são ferramentas capazes de gerar uma consciência ambiental e sensibilizar a comunidade. “A mudança não acontece de uma hora pra outra. É preciso criar uma cultura de conservação que mostre a importância de um ambiente sadio”. Porém, para manter um sistema de pesca sustentável é necessário mais do que isso. Segundo Zé Pescador, é preciso pensar na conservação agregada à geração de renda. “O cara não vai deixar de pescar daquela forma se não tiver um retorno econômico”, concluí.

E se engana quem pensa que os benefícios da preservação dos corais se limitam aos aspectos econômicos e ambientais. “Preservar os recifes é também preservar a cultura, as histórias e as raízes do local”, garante. Um exemplo disso é o fato do nome da ilha, “Itaparica”, significar “cercada de pedras”, em Tupi. Isso remete diretamente ao fato da ilha ser costeada por recifes, o que fazia as pessoas acreditarem que aquilo fossem pedras. “Por isso o projeto é tão importante, não podemos deixar isso acabar”.

O monitoramento ajuda a controlar a revitalização dos corais

Sinais da mudança
Mais tranqüilo após tantos anos de luta, Zé diz até que já pensa em se aposentar. “Agora que a ONG já está andando com as próprias pernas, eu sinto que já fiz a minha parte”. O cenário da pesca predatória no Estado também já começa a se modificar. “Isso está melhorando. Hoje a fiscalização já é mais séria e atuante, o que diminuiu o número de pescas predatórias. Já chegamos a contabilizar 40 explosões em um único dia na ilha do Medo.” Mas alerta: “Não basta fiscalizar para haver uma solução para esse tipo de pesca, é preciso unir educação ambiental e fiscalização e criar novas alternativas para aqueles pescadores”.

Os planos de Zé se resumem agora a fazer algumas palestras e terminar sua casa em Mar Grande, na ilha de Itaparica, que será toda feita com a ajuda dos amigos pescadores. “Eu quero utilizar madeiras tiradas de barcos e colocar uma horta lá nos fundos.” Pouca ambição? Não para esse homem, que vê nas coisas simples da vida o caminho para a felicidade. “Vivemos em um momento que nos faz refletir sobre a nossa forma de vida e como ela está longe de ser sustentável. A gente precisa se educar e buscar um modo de vida mais equilibrado, com um maior contato com a natureza.”

Quanto ao desenvolvimento da pesca na região, Zé diz que sua maior esperança é que essas iniciativas ajudem a promover e a desenvolver a atividade. “Não é porque são pescadores que eles têm que viver com tanta miséria. Eu espero que esses homens possam levar uma vida digna vivendo do mar.”

FONTE: EcoDesenvolvimento